Cinco ciclos de uma rica história

Data de Publicação: 15/09/2018


Os registros da ocupação do Médio Xingu e a criação do município de Altamira, o maior do Brasil em extensão territorial – com 159.695,938 km² e superior à área de nove Estados brasileiros –, se confundem com a história da família Umbuzeiro, uma das mais tradicionais da região. O pesquisador e escritor Antônio Ubirajara Bogea Umbuzeiro, de 51 anos, autor do livro “Altamira e sua História” (4ª Edição, publicação independente), ilustra bem os estreitos laços de seus antepassados com o Vale do Xingu. 
 
A paixão pela pesquisa ele herdou do pai, Ubirajara Marques Umbuzeiro (1925-2004), personagem influente e responsável pelos primeiros recortes da formação do povo local. Seguindo os passos do patriarca, Antônio Ubirajara percorreu um longo caminho para concluir sua obra, um dos mais completos estudos sobre a origem do povo xinguano. 

Morador do bairro Sudam II, em Altamira, ele conta com orgulho que identificou os primeiros registros da ocupação da região a partir da gravura Voyage au Xingu, de uma publicação francesa de 1897, de autoria de Henri Anatole Coudreau. A imagem representa palhoças, típicas habitações paraenses da época. "Com isso, fechamos uma lacuna sobre a fundação do município", afirma.

O escritor, no entanto, ressalta que a pesquisa ganhou amplitude após consulta à biblioteca virtual americana Center or Research Libraries (Centro de Bibliotecas de Pesquisa). No site, há uma seção de documentos brasileiros digitalizados denominada Brazilian Government Document Digitalization Project (Projeto de Digitalização de Documentos do Governo Brasileiro). "Na plataforma, há uma infinidade de estatísticas sobre o Brasil entre os anos de 1830 a 1889, com acervo dedicado à América Latina desde 1926", revela.

"Levei nove meses para conseguir fundir as informações levantadas pelo meu pai sobre a fundação de Altamira e Vitória do Xingu e a passagem dos jesuítas com os documentos do portal americano, que ajudaram a montar o quebra-cabeça que resultou no livro Altamira e Sua História", pontua Antônio Ubirajara.

MISSÕES RELIGIOSAS
De acordo com ele, para melhor compreensão dos fatos ocorridos no Vale do Xingu, pode-se dividir a história da região em cinco grandes ciclos. O primeiro deles foi marcado pela chegada dos jesuítas, entre 1636 e 1637, período em que ocorreu a fundação da primeira vila da região, denominada Itacuruçá. A partir de 1662, começou o processo de desbravamento da Volta Grande do Xingu e as missões religiosas foram retomadas a partir de 1868, por religiosos da ordem franciscana capuchinha. "Foi um ciclo muito dificíl de se definir, mas que comprova que os jesuítas passaram por aqui muito antes do que se tinha conhecimento", observa.

CICLO DA BORRACHA
Já no segundo momento, durante o primeiro ciclo da borracha da Amazônia, ocorreu a fundação de Altamira, em 2 de abril de 1883. A localidade, entretanto, somente ganhou a denominação de município em 1º de janeiro de 1912. Esse período ainda foi marcado pela predominância do coronelismo, migração em massa de nordestinos, chegada da energia elétrica movida a óleo diesel,  primeira crise econômica da região e a criação da Prelazia do Xingu (circunscrição eclesiástica) por sacerdotes católicos. "Nesse período, Altamira praticamente triplicou de tamanho por causa da produção de borracha. De pequeno vilarejo, se transformou numa grande cidade", detalha. 
 
SEGUNDA GUERRA
O terceiro período de desenvolvimento da região ocorreu durante o segundo ciclo da borracha, na mesma época em que parte do mundo vivenciava os horrores da Segunda Guerra Mundial (1936-1945). Milhares de trabalhadores migraram de várias regiões do Brasil, sendo chamados de "os soldados da borracha". "Nessa parte de nossa história, Altamira comemora 50 anos e a data coincide com a chegada dos primeiros engenheiros para construir a rodovia Transamazônica. "E os americanos restauraram estradas, investiram em saúde e no fornecimento da energia elétrica por aqui".
 
TRANSAMAZÔNICA
O início de construção da sonhada rodovia, para ligar o país de Norte a Sul, marcou o quarto ciclo da história do Vale do Xingu. A estrada propiciou a criação de agrovilas, conferindo à região uma mistura de manifestações culturais de vários Estados brasileiros Também contribuiu para a fundação dos municípios de Brasil Novo, Medicilândia, Uruará, Rurópolis, Pacajá e Anapu, assim como das primeiras organizações políticas e movimentos indigenistas. "Meu pai dizia que Altamira sem a Transamazônica seria apenas uma cidadezinha isolada à margem do Xingu. A rodovia trouxe mudanças radicais para a região. Houve forte interferência cultural do povo nordestino, até hoje presente no modo de vida dos altamirenses", salienta.
 
BELO MONTE
O escritor conclui sua  pesquisa com o registro da instalação da Usina Hidrelétrica Belo Monte, e compara a obra ao mesmo avanço obtido com a chegada da Transamazônica à região. Para Antônio Ubirajara, não há como construir uma usina de grande porte sem impactos e o legado positivo do empreendimento será assimilado pela população após a finalização do cumprimento de suas condicionantes.
 
"É impossível não observar as melhorias na saúde, com indicador de malária zero; na educação, com a formação de médicos; no saneamento básico, com o tratamento adequado da água, esgoto e resíduos sólidos", exemplifica. "Não podemos ignorar o fato de que milhares de famílias viviam em palafitas e agora moram em casas de alvenaria, sem a preocupação com os alagamentos", destaca.
 
LEGADO
Antônio Ubirajara considera que o livro, lançado em 2012 com 552 páginas e que chega à quarta edição, é um legado histórico para a atual e futuras gerações da região do Xingu. "Documentar tudo isso significa preservar a história de milhares de homens e mulheres que vieram para cá em busca de trabalho, seja na construção da Transamazônica ou de Belo Monte. Nossa missão é a de manter viva não somente a história da formação do Médio Xingu, mas de um Brasil profundo, ainda desconhecido", conclui.

RETRANCA
No âmbito do Projeto Básico Ambiental da UHE Belo Monte, a história a e cultura da região também tiveram vez. O Programa de Patrimônio Histórico, Paisagístico e Cultural compôs um vasto acervo de bens culturais de natureza imaterial. São 1.606 histórias de vida, 4.747 celebrações e formas de expressão mapeadas, 215 ofícios e modo de fazer, 25.705 lugares e edificações catalogadas, que geraram mais de 278 horas de registros vídeos. 

Chapéu: Matéria de capa / Oitenta anos em oito
Legendas: 

  • Desenho de autor desconhecido de vilarejo de Altamira, em 1826.
  • Ubirajara Umbzeiro, autor do livro Altamira e Sua História.
  • Prainha de Altamira, no centro da cidade, nos anos 1960.
  • Vista panorâmica da cidade nos anos 1980.
  • Casas de palha já foi o modo de vida dos altamirenses, segundo registro de 1896. 
  • Altamira vista de cima nos anos 1970. 
     

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