O carimbó que embala e protege vidas

Data de Publicação: 15/09/2018


O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), reconheceu, em 2014, o carimbó como patrimônio cultural imaterial brasileiro. Segundo o instituto, a história do carimbó “remonta ao século XVII, na região da Amazônia que corresponde ao atual Pará”. Os pesquisadores reforçam que a manifestação cultural foi trazida para o Brasil “por negros escravos africanos e incorporou influências indígenas e ibéricas, dando origem a uma manifestação singular, representada por grupos que se espalham por vários municípios” da região Norte.
Não foi sem referência, portanto, que o paraense e ex-militar Geizon Campos, 38 anos, encontrou no carimbó, a base para um projeto sociocultural que protege vidas em Altamira. Campos integrava, no começo dos anos 2000, o 51º Batalhão de Infantaria de Selva. Paralelamente, se envolvia cada vez mais com grupos de carimbó. Daí nasceu, em 2002, Associação dos Grupos Folclóricos de Altamira (AGFAL). “Temos a missão de transformar vidas. O trabalho não se resume unicamente em ensinar a dança pela dança, mas apresentar o carimbó como instrumento de mudança social", afirma.

A AGFAL reúne cerca de 700 jovens de todos os bairros de Altamira. Eles são alegres, comunicativos, determinados e formam oito grupos de carimbó: Flor da Juventude, Tradição Aparecida, Nova Geração, Rosa dos Ventos, Beija-Flor, Cisne Branco, Explosão Bela Vista e Explosão do Pará. “Percebemos que não há como fazer cultura à parte dos valores sociais, dos problemas que rondam nossos jovens", explica Campos.
Durante os ensaios, entre uma batida de tambor e outra, os grupos recebem orientação sobre os males provocados pelo uso de entorpecentes, dos problemas da gravidez precoce, entre outros temas relacionados à saúde e à violência. Para Luana Souza, 17 anos e moradora do bairro da Brasília, em Altamira, a dança vai além da função cultural. "Meu grupo, o Rosa dos Ventos, é minha segunda família. É na convivência com os demais participantes, todos meus amigos, que também encontro tranquilidade e apoio. Isso contribui muito para meu crescimento como mulher e cidadã", conta.
No mesmo compasso
A Norte Energia coordena iniciativa semelhante à da AGFAL, com atividades de arte, esporte, cultura e lazer voltadas à juventude de Altamira. O Projeto de Reparação Urbana ocorre simultaneamente nos cinco Reassentamentos Urbanos Coletivos (RUCs) – São Joaquim, Jatobá, Casa Nova, Laranjeiras e Água Azul – e tem como objetivo recompor os laços e vínculos sociais e organizacionais para fomentar produção cultural e lazer nos novos bairros e lazer às famílias remanejadas.
Neste sentido, são desenvolvidas atividades que incluem diferentes manifestações culturais por meio de produções artísticas, eventos culturais, sociais e educacionais de saúde e bem-estar. 


No RUC Jatobá, 28 jovens, entre 13 e 18 anos, integram o grupo de carimbó Explosão do Jatobá, que são atração em festas do bairro e da cidade. “O grupo existe há mais de três anos e reúne pessoas não só do RUC, mas também do bairro Independente I. Eles são apaixonados pela dança e demonstram que os reassentamentos também produzem cultura”, explica Maria Mota, presidente da Associação dos Moradores do RUC Jatobá. 


Na cadência do tambor
Pesquisas sobre o carimbó indicam que o nome vem de um tambor usado pelos músicos, o curimbó, que embala a dança que enche o povo paraense de orgulho. É um instrumento musical peculiar, de batida inconfundível, que se completa com o som do banjo e da maraca. O ritmo também é citado em algumas publicações como samba de roda do Marajó e baião típico do Marajó.

O carimbó se popularizou entre as décadas de 1960 e 1970 do século passado, quando a cena musical paraense se rendeu ao ritmo secular e esfuziante, até então restrito a comunidades tradicionais e a grupos folclóricos. Com isso, suas músicas passaram a tocar nos programas de rádio e, rapidamente, chegou aos salões de festas dos quatro cantos do Pará. Diversos artistas, como Lucindo, Pinduca, Cupijó e Verequete gravaram discos, ganharam fama e caíram no gosto popular.
 

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